segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


“Parei em frente a porta e vasculhei meus bolsos a procura das chave, assim que as encontrei, comecei um ritual que com o tempo se tornou parte da minha rotina, abro a porta, entro, fecho a porta, eu não tranco, isso era você quem fazia, não pense que só porque você se foi eu vou começar a cumprir suas obrigações, pelo menos não ainda. Ando até o sofá, no caminho tiro os sapatos e esvazio os bolsos, largo as coisas jogadas no chão, tiro a calça, a camiseta e o sutiã, pego aquela sua camiseta jogada no braço do sofá desde aquele dia e visto ela, lembro que é aquela que você usou no dia em que tudo acabou, me cubro com a colcha, que também está no sofá desde aquele dia, as vezes eu ligo a TV, nem sempre,quando chove eu não ligo, quando chove eu ouço música, as vezes com fones e as vezes sem, meu Ipod também está aqui no sofá, o carregador ainda está na tomada, o vidro da janela ainda está fechado, a cortina também, passa pouca luz pelo tecido, o apartamento está escuro, assim como naquele dia, mas eu ainda não fui aos outros cômodos, eu só ando até o banheiro e depois volto para o sofá, é lá que eu moro agora, foi lá que a gente dormiu naquela noite, foi a primeira vez que dormimos sozinhos em vários dias, quando você estava aqui o apartamento estava sempre cheio, sempre tinha alguém dormindo aqui, comendo aqui, respirando, vivendo, mas desde aquele di, ninguém viveu aqui, eu disse que queria ficar sozinha, eu fechei a cortina e desliguei o telefone, minha mãe vem aqui sempre, mas nós nunca conversamos, eu estou ausente. Sua mãe também veio, mas ela não agüentou ficar. Nossos amigos também aparecem, mas não como antes, eles só passam aqui, eles sentam ao meu lado, trazem alguma coisa pra eu comer, falam comigo, eu mal respondo, eles suspiram e me olham com pena, levantam e saem em silencio. Não tem ninguém aqui, nem eu.
As vezes eu choro, na verdade, quase sempre. Quando começa a escurecer, e a sala fica meio laranja, aí eu lembro do tempo que passamos juntos, e percebo que o tempo vai continuar a passar, aí eu choro, porque você não está mais aqui pra mim, e nunca mais vai estar. Eu sinto saudade, duas semanas e eu já sinto que fui eu que morri, ou talvez seja isso que eu queira. Eu quero ter morrido no seu lugar, então eu passo os dedos de leve nas lagrimas do meu rosto, esfrego uns nos outros e sinto o liquido. Não fui eu que morri. As vezes eu me pergunto quanto tempo vou durar, não sei se vou suportar o suficiente até que o tempo passe e faça com que a dor se apague um pouco. 
Eu cheguei a ir trabalhar, mas acho que parecia tão perdida que me mandaram voltar.
Você teria vergonha de mim, eu sequer consigo me mexer. Passo o tempo todo tentando lembrar o maior número possível de momentos que passamos juntos, eu tento listá-los na minha cabeça, na esperança de que eles nunca se apaguem e que você nunca se vá por completo, mesmo sabendo que o tempo vai enfraquecê-los gradativamente, eu me sinto na obrigação de me lembrar de tudo sobre você.
Essa noite foi diferente, sua irmã e seu melhor amigo vieram dormir aqui, quando eu perguntei pra eles como deveria apresentá-los ás pessoas, eles disseram pra chamar de “cunhado (a)”, mesmo com você não estando mais aqui, mas você morreu, e não tem mais um melhor amigo, mesmo assim, sua família disse que vai continuar me tratando como antes, isso me fez chorar, porque então eu percebi que você nunca voltaria, e eu continuarei a ser chamada de nora e cunhada mesmo sem nos vermos.
Eu nunca vou casar com você, nós nunca vamos ter filhos, nunca mais vamos rir juntos, nem nos beijarmos, nem fazermos amor. Nunca mais vamos fazer guerra de travesseiros, nem cozinhar juntos, nem tomar banhos juntos, nem sairmos pra tomar café, nem irmos a livrarias, nós nunca mais vamos ficar abraçados nas noites de frio, nem nas de tempo ameno, nem em noite nenhuma. Nós nunca mais vamos ser um casal. Eu sinto muito, você morreu. Eu sinto muito."

Fonte:tumblr

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